Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 554 | Fevereiro de 2025 | Campo Mourão - Paraná

ENTREVISTA

ROBERTO RODRIGUES

Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV-EESP. Embaixador Especial da FAO para o Cooperativismo

"Brasil precisa quebrar paradigmas para continuar crescendo no agro."

Em novembro de 2024, cooperados e funcionários da Coamo e da Credicoamo assistiram em Campo Mourão, importante palestra com o engenheiro agrônomo, professor e líder cooperativista, Roberto Rodrigues, o primeiro não europeu a presidir a Aliança Cooperativista Internacional (ACI). “Estamos sofrendo o abalo de quatro modernos cavaleiros do apocalipse, que são segurança alimentar, transição energética, mudanças climáticas e desigualdade social. Esses quatros fantasmas assolam o planeta e ninguém está livre disso, ninguém em lugar algum do mundo está livre e isso vai nos afetar mais cedo ou mais tarde. Então, temos que eliminar esses fantasmas e eu acho que é o agro que vai resolver isso”, afirma. Na visita à Coamo, ele conheceu o Memorial Coamo e ficou emocionado em ver o espaço construído para mostrar o passado, o presente e refletir sobre o futuro do agronegócio.

Revista Coamo: O senhor tem andado muito por esse Brasil e pelo mundo e é considerado um cavaleiro do cooperativismo, do agronegócio e, antes de tudo, um semeador. Como o senhor se define?

Roberto Rodrigues: Muito obrigado pela oportunidade. A minha saudação a família Coamo, essa cooperativa exemplar para o mundo inteiro e que eu admiro muito. Eu não sou cavaleiro de nada, eu sou um servidor da agricultura, do cooperativismo, eu digo que eu tenho um só partido político que é o PAC, o partido do agronegócio e do cooperativismo. É para esse partido que eu dediquei a minha vida inteira e espero viver ainda muito tempo e continuar servindo.

RC: O senhor sempre é indagado sobre as perspectivas para o nosso Brasil. Considerando todos os fatores geopolíticos e climáticos, qual é o momento do agro brasileiro e mundial, e para onde vamos?

Rodrigues: Essa é uma pergunta que todo mundo faz e eu também faço para mim mesmo e para todo mundo com quem eu converso dentro e fora do Brasil. Eu costumo dizer, que o mundo contemporâneo vive uma confusão muito grande e até um economista americano diz que estamos entrando na era da desordem, a democracia e a paz universal estão em risco. Há uma confusão planetária muito grande porque, fundamentalmente, as grandes organizações multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial do Comércio (OMC), perderam o protagonismo e a liderança, onde cada um faz o que quer. Isso está originando uma coisa fantasmagórica. Eu costumo dizer que estamos sofrendo o abalo de quatro modernos cavaleiros do apocalipse, que são: segurança alimentar, transição energética, mudanças climáticas e desigualdade social. Esses quatros fantasmas assolam o planeta e ninguém está livre disso, ninguém em lugar algum do mundo está livre e isso vai nos afetar mais cedo ou mais tarde. Então, temos que eliminar esses fantasmas e eu acho que o agro é que vai resolver isso. O agro tropical (que pega a América Latina, a África) é que vai liderar um programa mundial mexendo com agricultura, com o clima e gerando emprego e renda para acabar com a desigualdade social. O Brasil tem todas as condições para ser o líder desse processo, ser o protagonista histórico da segurança alimentar, da correta mudança com matriz energética gerando um clima saudável, e acabando com a desigualdade de renda no país. E isso tem que ser feito pelo agronegócio brasileiro.

RC: Por que isso passa pelo agronegócio brasileiro?

Rodrigues: Porque temos uma tecnologia tropical sustentável que ninguém tem igual. Nós temos gente muito boa na agricultura, temos algumas políticas públicas e o mercado lá fora que está cada vez mais exigente. Então temos a chance de sermos os grandes fornecedores de alimentos e de energia para o mundo todo. Liderando os processos, vendendo não só comida, mas energia e ensinando a plantar na África, na América Latina, na Ásia, para que mais gente ajude a salvar o planeta.

RC: O senhor fala que o Brasil pode ser esse protagonista, mas qual é a nossa realidade hoje e o que o produtor brasileiro tem que fazer?

Rodrigues: Bom, a realidade, lamentavelmente, é que não temos uma estratégia para isso. Até hoje não temos uma logística adequada, não temos um programa de renda no campo adequado, não temos acordos comerciais que funcionam para nós. A tecnologia está perdendo velocidade e tudo isso implica em sustentabilidade, que é a mola propulsora da comunidade, ou você é sustentável ou não vai competir. Nós temos feito a nossa parte da agricultura, mas falta estratégia. Estratégia é uma ação política, é o governo, é o parlamento, é o judiciário, é o estado brasileiro que tem que fazer. Como não temos tido uma aproximação mais consistente desse estado brasileiro, temos que pressionar para montar uma estratégia para o Brasil ser campeão mundial da segurança alimentar

Roberto Rodrigues é agrônomo e agricultor, coordenador do Núcleo de Agronegócios da FGV e Embaixador Especial das Cooperativas da FAO. Foi professor do Departamento de Economia Rural, UNESP – Jaboticabal-SP, e presidiu a OCB – Organização das Cooperativas Brasileiras, COSAG – Conselho Superior do Agronegócio da FIESP, SRB – Sociedade Rural Brasileira, ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio e ACI – Aliança Mundial de Cooperativas. Também atuou como Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo (1993/1994) e Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2003-2006).

“O BRASIL TEM TODAS AS CONDIÇÕES PARA SER O PROTAGONISTA HISTÓRICO DA SEGURANÇA ALIMENTAR E ACABAR COM A DESIGUALDADE DE RENDA."

RC: O senhor imagina que isso possa acontecer em quanto tempo?

Rodrigues: Depende da gente, da capacidade e da vontade de querer fazer. Eu sou um servidor e faço isso o dia inteiro, todo lugar que eu vou, digo que precisamos ser o campeão mundial da segurança alimentar e energética. Temos condições para isso e a oportunidade que nos foi dada temos que pegar e transformar em realidade com uma estratégia adequada. Não depende só da gente, depende muito mais das estruturas governamentais. Então a nossa pressão tem que ser diuturna, porque só assim, poderemos ter uma estratégia adequada para o Brasil ganhar essa guerra.

RC: O professor José Luiz Tejon, com quem o senhor tem partilhado alguns eventos, fala sempre da comunicação do agro, que agricultor produz e faz a parte dele, mas o agro não se comunica. O senhor concorda e tem aprendido com ele?

Rodrigues: Eu tenho discutido muito isso com o Tejon, e concordo com ele. Infelizmente, nós tivemos um problema sério na educação no Brasil. Hoje o material didático escolar, por exemplo, trata a agricultura em segundo plano, uma coisa de segunda classe, com informações erradas e velhas. Então isso aí tem que mudar, porque a criança vai na escola e aprende tudo errado e fica com raiva da agricultura. Então, o que me incomoda, não é que não comunicamos adequadamente, mas quem vai ser comunicado não quer ser comunicado e aprende errado, e temos que mudar a educação no Brasil para a comunicação ser mais eficiente.

RC: O senhor tem falado muito sobre a importância do agronegócio e, principalmente, que chega a praticamente 24% do PIB brasileiro e 49% das exportações em valor. A comunidade brasileira fora do agro, reconhece isso?

Rodrigues: Sim, eu acho que isso está mudando, tem gente começando a reconhecer. Mas eu acho que ainda tem uma falta de informação adequada. Precisamos cuidar dessa relação entre o urbano e o rural mais intensamente. Eu sou produtor rural, então a semente que eu planto é gerada por alguém formado numa universidade. Então, o banco é urbano, a empresa que constrói estrada, ferrovia, trator, máquinas agrícolas é urbana. Eu preciso da cidade, aí a gente planta e colhe, e vai para onde? Vai para a fábrica, para uma cooperativa, para um supermercado, que são urbanos. Então eu preciso da cidade antes de plantar e depois de colher, sem a cidade eu não vivo, mas sem o agricultor, a cidade morre de fome. Então, essa relação entre urbano e rural tem que ser explicada, insistida todos os dias, toda hora, para que o cidadão brasileiro, urbano ou rural se sinta parte desse processo.

RC: O senhor foi eleito como o primeiro não europeu, presidente da Aliança Cooperativista Internacional em 1990. Nesta eleição, o vice-presidente da ACI, o sueco, Lars fez uma observação dizendo que antes a ACI tinha apenas corpo e com sua posse passou a ter também alma. Como foi isso?

Rodrigues: É verdade, isso é a essência do cooperativismo, é a essência da vida humana. Nós somos corpo e alma, matéria, espírito, e não haverá inteireza, integridade e o cooperativismo é isso, é corpo e alma também.

RC: Como foi a sua experiência, mesmo que breve, quando da chegada na cooperativa para palestrar no “CBN Agro” de conhecer esse projeto novo, o Memorial Coamo.

Rodrigues: Olha, eu fui ao Memorial Coamo e não tenho vergonha de dizer que fiquei emocionado, muito emocionado porque, quem não cultiva os seus heróis, quem não sabe de onde vem, não sabe para onde vai. O que vocês fizeram aqui na Coamo com esse memorial é uma história extraordinária, que dá um orgulho profundo de ter participado de alguma forma e sentir que a Coamo está lançando o Brasil para o mundo com muita consistência. E fiquei muito feliz em rever, bem cuidada, a árvore que plantei aqui na sede da Coamo em 23 de agosto de 1990. Quem planta uma árvore faz um gesto de três dimensões. Primeiro, o gesto da fé, você acredita que ela vai crescer, vai florescer, vai dar sombra e frutos para alguém que vai passar. O segundo gesto é do desprendimento. Eu voltei agora, 34 anos depois, mas quando eu plantei a árvore não tinha a menor ideia se eu ia vê-la algum dia, mas alguém ia ver. E terceiro, é um gesto concreto, pois a defesa do meio ambiente é real, não é discurso, é prático. Então, plantar uma árvore é um gesto que só pode dar prazer e alegria para quem o fez.

RC: Qual é a mensagem que o senhor deixa para os cooperados, funcionários, familiares e comunidade?

Rodrigues: Uma mensagem até singela e simples demais. Apesar das confusões e das complicações que existem no mundo, um fato é real: é preciso comer, é preciso respirar, é preciso viver. Ninguém faz isso sem agricultura e o Brasil pode ser o herói, o herói mundial da segurança alimentar, garantindo a paz para o mundo. Eu não podia ver maior legado para nós todos, que estamos aqui, juntos, você e eu, do que ser campeão mundial da paz. Vamos fazer isso que vale a pena. Obrigado a família Coamo por esta oportunidade e o desejo de que tenhamos um feliz e próspero 2025.

"O mundo precisa comer, respirar e viver. Ninguém faz isso sem agricultura e nós, o Brasil, podemos ser o herói mundial da segurança alimentar, garantindo a paz para o mundo. Eu não podia ver maior legado para nós todos, do que ser campeão mundial da paz."

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