RC: O senhor imagina que isso possa acontecer em quanto tempo?
Rodrigues: Depende da gente, da capacidade e da vontade de querer fazer. Eu sou um servidor e faço isso o dia inteiro, todo lugar que eu vou, digo que precisamos ser o campeão mundial da segurança alimentar e energética. Temos condições para isso e a oportunidade que nos foi dada temos que pegar e transformar em realidade com uma estratégia adequada. Não depende só da gente, depende muito mais das estruturas governamentais. Então a nossa pressão tem que ser diuturna, porque só assim, poderemos ter uma estratégia adequada para o Brasil ganhar essa guerra.
RC: O professor José Luiz Tejon, com quem o senhor tem partilhado alguns eventos, fala sempre da comunicação do agro, que agricultor produz e faz a parte dele, mas o agro não se comunica. O senhor concorda e tem aprendido com ele?
Rodrigues: Eu tenho discutido muito isso com o Tejon, e concordo com ele. Infelizmente, nós tivemos um problema sério na educação no Brasil. Hoje o material didático escolar, por exemplo, trata a agricultura em segundo plano, uma coisa de segunda classe, com informações erradas e velhas. Então isso aí tem que mudar, porque a criança vai na escola e aprende tudo errado e fica com raiva da agricultura. Então, o que me incomoda, não é que não comunicamos adequadamente, mas quem vai ser comunicado não quer ser comunicado e aprende errado, e temos que mudar a educação no Brasil para a comunicação ser mais eficiente.
RC: O senhor tem falado muito sobre a importância do agronegócio e, principalmente, que chega a praticamente 24% do PIB brasileiro e 49% das exportações em valor. A comunidade brasileira fora do agro, reconhece isso?
Rodrigues: Sim, eu acho que isso está mudando, tem gente começando a reconhecer. Mas eu acho que ainda tem uma falta de informação adequada. Precisamos cuidar dessa relação entre o urbano e o rural mais intensamente. Eu sou produtor rural, então a semente que eu planto é gerada por alguém formado numa universidade. Então, o banco é urbano, a empresa que constrói estrada, ferrovia, trator, máquinas agrícolas é urbana. Eu preciso da cidade, aí a gente planta e colhe, e vai para onde? Vai para a fábrica, para uma cooperativa, para um supermercado, que são urbanos. Então eu preciso da cidade antes de plantar e depois de colher, sem a cidade eu não vivo, mas sem o agricultor, a cidade morre de fome. Então, essa relação entre urbano e rural tem que ser explicada, insistida todos os dias, toda hora, para que o cidadão brasileiro, urbano ou rural se sinta parte desse processo.
|
RC: O senhor foi eleito como o primeiro não europeu, presidente da Aliança Cooperativista Internacional em 1990. Nesta eleição, o vice-presidente da ACI, o sueco, Lars fez uma observação dizendo que antes a ACI tinha apenas corpo e com sua posse passou a ter também alma. Como foi isso?
Rodrigues: É verdade, isso é a essência do cooperativismo, é a essência da vida humana. Nós somos corpo e alma, matéria, espírito, e não haverá inteireza, integridade e o cooperativismo é isso, é corpo e alma também.
RC: Como foi a sua experiência, mesmo que breve, quando da chegada na cooperativa para palestrar no “CBN Agro” de conhecer esse projeto novo, o Memorial Coamo.
Rodrigues: Olha, eu fui ao Memorial Coamo e não tenho vergonha de dizer que fiquei emocionado, muito emocionado porque, quem não cultiva os seus heróis, quem não sabe de onde vem, não sabe para onde vai. O que vocês fizeram aqui na Coamo com esse memorial é uma história extraordinária, que dá um orgulho profundo de ter participado de alguma forma e sentir que a Coamo está lançando o Brasil para o mundo com muita consistência. E fiquei muito feliz em rever, bem cuidada, a árvore que plantei aqui na sede da Coamo em 23 de agosto de 1990. Quem planta uma árvore faz um gesto de três dimensões. Primeiro, o gesto da fé, você acredita que ela vai crescer, vai florescer, vai dar sombra e frutos para alguém que vai passar. O segundo gesto é do desprendimento. Eu voltei agora, 34 anos depois, mas quando eu plantei a árvore não tinha a menor ideia se eu ia vê-la algum dia, mas alguém ia ver. E terceiro, é um gesto concreto, pois a defesa do meio ambiente é real, não é discurso, é prático. Então, plantar uma árvore é um gesto que só pode dar prazer e alegria para quem o fez.
RC: Qual é a mensagem que o senhor deixa para os cooperados, funcionários, familiares e comunidade?
Rodrigues: Uma mensagem até singela e simples demais. Apesar das confusões e das complicações que existem no mundo, um fato é real: é preciso comer, é preciso respirar, é preciso viver. Ninguém faz isso sem agricultura e o Brasil pode ser o herói, o herói mundial da segurança alimentar, garantindo a paz para o mundo. Eu não podia ver maior legado para nós todos, que estamos aqui, juntos, você e eu, do que ser campeão mundial da paz. Vamos fazer isso que vale a pena. Obrigado a família Coamo por esta oportunidade e o desejo de que tenhamos um feliz e próspero 2025.
"O mundo precisa comer, respirar e viver. Ninguém faz isso sem agricultura e nós, o Brasil, podemos ser o herói mundial da segurança alimentar, garantindo a paz para o mundo. Eu não podia ver maior legado para nós todos, do que ser campeão mundial da paz."
|