Diego Mário Boiani (Xanxerê), Roberto Bueno Silva (Campo Mourão), Caroline Pontes de Souza (Ouro Verde) e Giolvar Rombaldi (Abelardo Luz)
O experimento sobre rotação de culturas na Fazenda Experimental de Campo Mourão iniciou em 11 de abril de 1985, completando 40 anos nesta safra, sendo o ensaio mais longevo do Brasil. Desde a implantação, o departamento Técnico da Coamo e pesquisadores da Embrapa Soja acompanham os efeitos da rotação de culturas ao longo dos anos. Entre os principais impactos estão o aumento da produtividade, a melhora das condições físicas, químicas e biológicas do solo e a lucratividade da atividade.
O engenheiro agrônomo, Roberto Bueno Silva, da Coamo em Campo Mourão, destaca que o cooperado, na propriedade, não tem condições de gerar tantos dados por tantos anos como ocorre na Fazenda Experimental. “É uma pesquisa de longo prazo, que exige investimento. Ensaios como o de rotação de culturas precisam ser conduzidos por um período extenso para avaliar as diferenças entre os sistemas produtivos.”
Segundo ele, a região de atuação da Coamo apresenta diferenças signifi cativas de solo e clima. “Temos áreas mais baixas e quentes, como a região de Campo Mourão, Vale do Ivaí, Oeste do Paraná e Mato Grosso do Sul, onde predomina a sucessão soja e milho segunda safra. Já nas regiões mais altas e frias, o trigo ganha espaço na sucessão com a soja. São sistemas produtivos efi cientes. Mas, ao longo dos anos, sem rotação de culturas, surgem desafios técnicos e econômicos”, sugere.
O ensaio na Fazenda Experimental foi implantado em 1985, quando o sistema de plantio direto ainda era recente. “Nessa época, havia alguns desafios e a pesquisa indicava que a rotação de culturas poderia ser uma técnica efi ciente para enfrentar esses problemas”, explica Bueno. Ele reforça que, apesar do reconhecimento da importância da rotação de culturas, a adoção nas lavouras ainda é limitada. “O produtor, muitas vezes, acredita que cultivar grãos continuamente garante mais rentabilidade. No entanto, nossos dados mostram que a diversificação pode ser mais vantajosa. Na região quente, por exemplo, substituir 30% da área de milho segunda safra por braquiária ruziziensis, ao longo das safras, resulta em mais retorno econômico. Na região fria, resultados semelhantes foram observados”. “Esperamos que, com as informações repassadas no encontro de verão, os cooperados possam aprimorar ainda mais os sistemas produtivos e obter melhores resultados econômicos”, conclui Bueno.
O pesquisador da Embrapa Soja, Henrique Debiasi, reforça que a realidade da produção de grãos no Paraná em 1985 era bem diferente da atual. "Naquela época, predominava o preparo convencional do solo, o que resultava em grandes perdas por erosão. O sistema de plantio direto ainda estava no início, com menos de 200 mil hectares no Estado, representando menos de 5% da área total."
Debiasi recorda que a expansão do plantio direto era uma necessidade, mas enfrentava desafios tecnológicos, como a falta de máquinas adequadas e o manejo de plantas daninhas, além da predominação da sucessão soja e trigo. “Foi nesse contexto que surgiu o ensaio de rotação de culturas. A Embrapa teve a felicidade de participar desde o início. Eu sou a terceira geração de pesquisadores nesse experimento", diz.
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Durante o Encontro de Verão, houve a troca de uma placa que destaca o ensaio de rotação de culturas com soja realizado na Fazenda Experimental. Trabalho é realizado em parceria com a Embrapa e é o mais longevo do Brasil
O ensaio apresentado no encontro com cooperados contou com 12 tratamentos, compostos por diferentes sistemas de rotação de culturas. "As variações ocorrem conforme a existência ou não de rotação no verão, entre soja e milho, e no outono-inverno, com trigo, milho segunda safra e plantas de cobertura", explica. Esses sistemas possuem ciclos de quatro anos e são comparados com a sucessão soja-trigo, predominante na época da implantação do experimento. "Temos um tratamento em que cultivamos trigo no inverno e soja no verão há 40 anos, o que nos permite analisar a dinâmica química, física e biológica do solo em diferentes cenários."
Segundo o pesquisador, os resultados mostram que os efeitos da rotação de culturas ocorrem no médio e longo prazo. "Foi necessário mais de 15 anos de experimentação para observar diferenças consistentes na produtividade das culturas. Todas as culturas envolvidas produzem mais nos sistemas de rotação, com ganhos que variam entre 5% e 20%, dependendo da cultura. "O trigo é o mais responsivo, seguido pelo milho verão, milho segunda safra e, por último, a soja, que responde à rotação, mas de forma menos expressiva. Mas, mesmo assim é um retorno importante."
O pesquisador ressalta ainda que os benefícios vão além da produtividade. "A rotação de culturas melhora todas as propriedades do solo, especialmente a parte física. O experimento mostra que, mesmo após 40 anos de plantio direto sem revolver o solo, não há problemas de compactação, mesmo em áreas com mais de 75% de argila. Além disso, o perfil químico do solo foi mantido adequado, com aplicações de calcário em superfície. A atividade biológica também apresenta melhorias signifi cativas. A rotação aumentou em até 40% a atividade biológica do solo, reduzindo prejuízos com nematoides e fungos”, destaca Debiasi.
Alexandre Lima Nepomuceno, chefe-geral da Embrapa Soja, destaca que a longevidade do experimento é um fator essencial para sua relevância, pois permite a coleta de dados de longo prazo sobre a influência de diferentes culturas e épocas de plantio. “Foi ao longo das décadas que conseguimos consolidar informações valiosas, o que reforça a importância de manter esse tipo de estudo.”
Henrique Debiasi, Embrapa Soja
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