|
Quando olho para trás e lembro dos acontecimentos há 50 anos, tenho a sensação de que foi ontem. Vivi intensamente aquele período e posso dizer, com convicção, que poucas regiões do Brasil passaram por uma transformação tão profunda quanto a nossa.
Na década de 1970, a realidade era muito diferente da que conhecemos hoje. As terras da região de Campo Mourão eram consideradas fracas, ácidas e de baixa fertilidade. Muitos conheciam esta área como a terra dos "três S": sapé, saúva e samambaia. Produzir era um desafio enorme.
O plantio era praticamente manual, a mecanização ainda era incipiente, não havia correção adequada do solo e a produtividade era bastante limitada. Mas, havia algo que nunca faltou aos agricultores da nossa região: coragem para enfrentar desafios.
Quando a agricultura começou a avançar, surgiu um dos maiores problemas da nossa história: a erosão. Bastavam chuvas mais intensas para que a terra fértil fosse carregada pelas enxurradas. A cada safra ficava mais evidente que não bastava produzir. Era preciso conservar.
Começamos então uma verdadeira luta pela preservação do solo. Vieram as curvas de nível, os murunduns, os terraços e diversas práticas conservacionistas. Cada etapa representava um aprendizado. Muitas vezes acertávamos, outras precisávamos recomeçar.
Um marco inesquecível foi o lançamento do Programa Nacional de Conservação dos Solos. A escolha por Campo Mourão representou um reconhecimento ao esforço dos agricultores, lideranças e instituições que acreditavam ser possível construir uma agricultura mais sustentável. Aquele momento simbolizou uma mudança de mentalidade que permanece atual até hoje: conservar o solo é preservar o futuro.
|
A grande revolução, porém, veio com o plantio direto. Confesso que, naquele tempo, parecia quase impossível imaginar uma agricultura sem revolver a terra. Mas, a tecnologia mostrou seu valor. O plantio direto reduziu drasticamente a erosão, preservou a umidade, aumentou a fertilidade e abriu caminho para uma nova agricultura.
Ao longo dessas cinco décadas, vimos a ciência, pesquisa e a assistência técnica transformarem uma região antes limitada em uma das mais produtivas do Brasil. O cooperativismo teve papel fundamental nesse processo. Nada disso foi obra de uma única pessoa. Foi o resultado do trabalho conjunto de produtores, técnicos, pesquisadores, lideranças e cooperativas.
Hoje contamos com agricultura de precisão, monitoramento por satélite, conectividade no campo, máquinas modernas e uma estrutura técnica altamente qualificada. O futuro exigirá novas tecnologias, mais conhecimento e ainda mais eficiência. Mas, o princípio permanece inalterado. Precisamos continuar cuidando da terra, corrigindo a fertilidade, preservando a estrutura e garantindo que permaneça produtiva para as próximas gerações.
Tenho orgulho de ter acompanhado essa história desde o início. Mais orgulho ainda de ver que a trajetória continua sendo construída por milhares de cooperados. Afinal, transformar uma região é uma grande conquista, mas, mantê-la produtiva, sustentável e preparada para o futuro é a nossa missão permanente.
|
ENGENHEIRO AGRÔNOMO, JOSÉ AROLDO GALLASSINI Presidente dos Conselhos de Administração Coamo e Credicoamo
|
|