Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 572 | Setembro de 2026 | Campo Mourão - Paraná

CONSERVAÇÃO DE SOLOS

conservação de solos


Lavoura em preto e branco com uma árvore isolada sob céu carregado

Preservar o solo vai muito além da agricultura

Transformação do campo passou pelo conhecimento, pela conservação da terra e pela adoção de práticas que sustentam a produção ao longo do tempo

A agricultura é resultado de um processo contínuo de aprendizado, transformação e adaptação às condições do campo. Na região de Campo Mourão, essa trajetória foi marcada por desafios que exigiram mudanças na forma de produzir e pela construção gradual de conhecimentos que permitiram transformar as condições de cultivo. Dos primeiros experimentos com as lavouras à mecanização, passando pela pesquisa e pela adoção de práticas conservacionistas, produtores, técnicos, pesquisadores, cooperativas e instituições participaram dessa evolução. Entre os principais desafios esteve a conservação do solo, que ganhou importância à medida que a expansão das lavouras e o avanço da mecanização evidenciaram os limites do sistema produtivo da época.

Foi nesse processo de transformação que Campo Mourão ganhou destaque no cenário agrícola brasileiro. Em 1976, o município foi escolhido para o lançamento do Programa Nacional de Conservação dos Solos, marco de uma mobilização que reuniu diferentes setores em torno da preservação da base produtiva. A partir daí, a história da região também passou pela correção da acidez, pela adubação, pelo desenvolvimento e adoção de novas tecnologias e pela consolidação do plantio direto, práticas que contribuíram para construir o cenário agrícola atual.

Com a emancipação em 1947, dezenas de vilas no entorno de Campo Mourão também se transformaram em municípios. Apesar do progresso, a luta pela terra nas décadas de 1950 e 1960 afastou o interesse de novos moradores em se estabelecer na região.

A exploração madeireira atingiu seu ápice na década de 1960. Em pouco tempo, imensas florestas de araucária (árvore símbolo do Paraná) desapareceram em nome do progresso. Madeireiras e serrarias instalaram-se em grande número na região de Campo Mourão. Riquezas e conglomerados empresariais foram formados com a extração de madeira. Parte significativa dessa produção foi destinada à construção de Brasília, projeto idealizado por Juscelino Kubitschek.

Contudo, a exploração intensiva levou, em poucos anos, à devastação dos campos de araucária. No final da década de 1960, o ciclo madeireiro chegou ao seu fim.

EROSÃO

Segundo levantamento, na década de 1960, a região de Campo Mourão contava com 250 mil hectares de lavouras mecanizadas, e apenas 10% dessa área encontrava-se sob algum tipo de controle, ainda que parcial. Os solos na região eram de transição, com a presença de terras roxas, mistas e arenosas, o que contribuía para a ocorrência de diferentes tipos de erosão, como a “laminar”, considerada a mais perigosa por sua ação silenciosa e contínua, responsável pela remoção gradual da camada superficial do solo, justamente a mais rica em nutrientes.

O drama da erosão refletia não apenas um problema técnico, mas um desafio estrutural para a agricultura regional, exigindo mudanças nas práticas de manejo, políticas públicas eficazes e, sobretudo, uma nova consciência sobre a importância da conservação dos solos para o futuro da produção agrícola.

QUESTIONAMENTOS

Com essa realidade, estudos realizados apontaram que os solos da região eram de baixa produtividade, o que poderia desvalorizar as propriedades e desestimular investimentos. Mesmo sem conhecimento aprofundado em agricultura, o prefeito da época, Horácio Amaral, buscou especialistas e passou a estudar o tema. Questionava como terras cobertas por vegetação densa e vigorosa poderiam ser consideradas pobres.

Voçoroca em solo vermelho, com cerca ao fundo
Recorte de anúncio antigo sobre erosão: Continue arando e gradeando sua terra antes de plantar soja e trigo, continue. Depois, não venha reclamar da erosão

Os solos na região eram de transição, com a presença de terras roxas, mistas e arenosas, o que contribuía para a ocorrência de diferentes tipos de erosão

Para enfrentar esse cenário, criou o Departamento de Agricultura e iniciou um programa de incentivo ao cultivo do trigo. A prefeitura forneceu sementes e orientação técnica, contrariando o pessimismo inicial dos estudos. Em abril de 1969, encaminhou à Câmara um projeto de lei solicitando autorização para a compra de duzentas sacas de sementes de trigo da “Café do Paraná”.

CINCO TRATORES

Na época, a tecnologia agrícola era praticamente inexistente. Havia apenas cinco tratores na região, e predominavam lavouras manuais de arroz, milho e algodão. Não por acaso, a região era conhecida como terra dos “três S”: sapé, samambaia e saúva.

Os primeiros experimentos com trigo ocorreram entre abril e setembro de 1969, e na propriedade do agricultor Franz Kaiser, na Fazenda Santa Izabel, foram realizados os primeiros cultivos do cereal em Campo Mourão. O foco estava nos estudos sobre variedades, adubação, calagem e épocas de plantio. Em seguida, iniciou o cultivo da soja.

DÉCADA DE TRANSFORMAÇÃO

A década de 1970 representou um dos períodos mais transformadores da história da agricultura brasileira. Inserido em um contexto de forte intervenção estatal e de busca por crescimento econômico, o país passou a investir intensamente na modernização do campo, com o objetivo de ampliar a produção de alimentos, fortalecer o mercado interno e consolidar-se como exportador de commodities agrícolas.

O Ministério da Agricultura assumiu papel central na formulação e execução de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do setor, estimulando o crédito rural, a mecanização e a adoção de insumos industriais. O processo de modernização agrícola foi marcado pela introdução de tratores, implementos mecânicos e pelo uso crescente de fertilizantes e defensivos. Culturas como a soja, o milho e o trigo ganharam escala e passaram a ocupar grandes áreas, especialmente na região Sul, onde estados como o Paraná se destacaram como importantes polos produtivos.

EMBRAPA

Em 1973 foi criada a Embrapa, que passou a desenvolver pesquisas voltadas às condições tropicais para viabilizar a expansão agrícola em larga escala. Nesse período, o revolvimento intensivo do solo por meio de arados e grades deixava a terra exposta à ação das chuvas. Como consequência, no Sul do Brasil, multiplicaram-se casos de erosão, com a formação de sulcos, ravinas e voçorocas, comprometendo a fertilidade e reduzindo a produtividade das lavouras. “A perda da camada superficial do solo, rica em matéria orgânica e nutrientes, passou a representar um dos principais desafios da agricultura brasileira naquele período.”

DESAFIOS NO PARANÁ

Na década de 1970, a erosão dos solos se configurava como uma das mais graves ameaças à agricultura no Noroeste do Paraná. O avanço acelerado da mecanização, aliado à retirada da cobertura vegetal e ao uso intensivo da terra, havia desencadeado um processo contínuo de degradação, que se tornava visível a cada chuva, quando toneladas de solo fértil eram arrastadas das lavouras.

Trator semeando em campo, com pessoas sobre o implemento, em foto antiga em preto e branco

conservação de solos


Campo Mourão e o lançamento do Programa Nacional de Conservação dos Solos

Colheitadeira antiga em lavoura de trigo, em foto em preto e branco
Retrato em preto e branco de Getúlio Ferrari

“Senhor ministro, já que a situação da nossa região é bastante delicada, como o senhor mesmo pôde notar quando sobrevoou a região, o que impede no momento o lançamento deste programa no Paraná? E por que não em Campo Mourão?”, pediu Ferrari. A resposta veio de forma imediata e contundente: “Lançaremos aqui, combine com o meu secretário.”

GETÚLIO FERRARI
agricultor e vice-presidente da Coamo em 1976

A escolha de Campo Mourão como sede do lançamento do Programa Nacional de Conservação dos Solos (PNCS) foi por uma combinação de fatores técnicos, políticos e simbólicos que colocaram o município no centro de um dos mais importantes momentos da política agrícola brasileira na década de 1970. A erosão avançava de forma alarmante sobre as áreas produtivas do Noroeste do Paraná e a cidade reunia as condições ideais para se tornar vitrine de uma nova estratégia nacional de conservação do solo.

A região era reconhecida como uma das mais afetadas pelo problema. Campo Mourão e seu entorno enfrentavam um processo acelerado de degradação, agravado pela mecanização intensiva da agricultura e pela retirada da cobertura vegetal. A erosão comprometia a fertilidade da terra e colocava em risco a sustentabilidade da produção agrícola.

O agricultor e vice-presidente da Coamo em 1976, Getúlio Ferrari, liderança de destaque, foi um protagonista e articulador do movimento que mudaria o destino da cidade. Ferrari compreendeu que o enfrentamento da erosão exigia mais do que soluções técnicas: era necessário inserir o município na agenda nacional.

Sabendo que o governo federal pretendia lançar um programa nacional, mas ainda não havia definido o local, Ferrari, incentivado pelo secretário estadual da Agricultura Paulo Carneiro, fez o pedido durante um encontro com o ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli.

O breve diálogo foi suficiente para mudar o rumo dos acontecimentos. A decisão consolidou Campo Mourão como sede do lançamento do PNCS (Plano Nacional de Conservação de Solos) e a cidade se mobilizou intensamente para a realização do evento. A organização envolveu uma ampla rede de lideranças locais, destacando-se a atuação do engenheiro agrônomo, José Aroldo Gallassini, presidente do Conselho de Administração da Coamo, com a Secretaria da Agricultura, cooperativas, sindicatos e clubes de serviço.

“A gente esperava a presença de mais de 15 mil pessoas, entre agricultores, estudantes, cooperativistas e autoridades. Campo Mourão passaria a ser uma referência nacional no enfrentamento da erosão”, lembra Gallassini, e a programação foi cuidadosamente preparada com atos institucionais e demonstrações práticas.

O ponto alto seria o lançamento do programa em uma lavoura, com a execução de técnicas conservacionistas. O próprio ministro manifestou o desejo de participar ativamente da ação, afirmando que pretendia subir no trator e “dar o primeiro risco de uma curva em nível”, gesto que simbolizava a aproximação entre a política pública e a prática agrícola.

O prefeito Renato Fernandes destacou a importância do momento, reconhecendo que a cidade carregava “profundas feridas provocadas pela erosão”. Do ponto de vista histórico, o lançamento do PNCS em Campo Mourão representou mais do que a implementação de uma política pública. Ao provocar o ministro e apresentar uma solução concreta, Ferrari não apenas garantiu o lançamento do programa em Campo Mourão, mas também projetou o município como protagonista na história da conservação dos solos no Brasil.

Assim, o episódio tornou-se emblemático. Ele sintetiza um momento em que a iniciativa individual, aliada à organização coletiva, foi capaz de influenciar decisões de alcance nacional. Campo Mourão, a partir dali, deixou de ser apenas um território afetado pela erosão para tornar-se símbolo da luta pela preservação do solo e pela construção de uma agricultura mais sustentável.

O DIA

No dia marcado para o lançamento do Programa Nacional de Conservação de Solos (PNCS), Campo Mourão viveu um dos momentos mais emblemáticos de sua história agrícola. Participaram o ministro da Agricultura, Alysson Paolinelli, acompanhado do governador do Estado do Paraná, Jaime Canet Júnior, do secretário da Agricultura, Paulo Carneiro, com outras autoridades e lideranças. Eles se dirigiram à praça Bento Munhoz da Rocha Netto, a “Praça do Fórum”, com grande número de populares para lançar o Plano Nacional de Conservação de Solos.

Multidão reunida em praça com automóveis estacionados ao redor, em foto de 1976
Dois homens à mesa, um deles assinando um documento
Multidão de agricultores reunida em ambiente fechado



Monumento marca a história da conservação de solos

Monumento de Conservação do Solo, em Campo Mourão, iluminado à noite

“Conservar o solo é garantir que sua generosidade, em fartas colheitas, seja também desfrutada por outras gerações.”

“O solo é o maior patrimônio de uma nação. Conservá-lo é investir no futuro.”

Na Praça do Fórum, foi inaugurado o Monumento à Conservação do Solo, concebido como símbolo permanente do lançamento do programa. A obra, de autoria dos artistas João Osório Bueno Brzezinski e Fernando Rogério Senna Calderari, do Centro de Criatividade de Curitiba, havia sido escolhida pela Secretaria da Agricultura entre diversos projetos apresentados e viabilizado com a participação da Coamo, da Prefeitura Municipal, da Secretaria da Agricultura, de bancos e de outras entidades ligadas ao setor agrícola.

Autoridades e populares em torno do monumento durante a inauguração, em 1976

Inauguração do monumento de Conservação de Solos, em 1976

Alysson Paolinelli reconheceu a gravidade do problema da erosão no Brasil e afirmou que o governo federal estava comprometido em garantir o sucesso do programa. O lançamento do PNCS, naquele contexto, não era apenas uma iniciativa técnica, mas um esforço nacional para preservar a base produtiva da agricultura. Após as solenidades, a comitiva dirigiu-se à Fazenda Experimental da Coamo, onde ocorreu o momento mais simbólico do evento: o lançamento prático do programa. Ali, o ministro realizou o primeiro risco de uma curva de nível, gesto que representava, de forma concreta, o início das ações de conservação do solo na região. Encerrando a agenda, o ministro visitou as instalações da Coamo, consolidando a importância da entidade como parceira fundamental na implementação das políticas agrícolas.

Pessoas ao redor do monumento durante a comemoração dos 50 anos do lançamento do plano

Comemoração dos 50 anos do lançamento do Plano de Conservação de Solos

conservação de solos


Fazenda Experimental guarda parte da história

Área do Museu do Solo na Fazenda Experimental da Coamo, com solo vermelho e placa de identificação

Além das práticas adotadas nas áreas de produção, a Fazenda Experimental mantém uma área destinada ao Museu do Solo, que preserva as condições originais do solo da região de Campo Mourão. O espaço, com cerca de 600 metros quadrados, permite demonstrar as limitações naturais do solo antes da adoção das tecnologias atualmente utilizadas.

Historicamente, os solos da região eram caracterizados por elevada acidez e baixa disponibilidade de nutrientes, condição que dificultava o cultivo de culturas como soja, trigo e milho.

No Museu do Solo, são mantidas parcelas com diferentes condições de manejo, incluindo áreas sem correção e áreas onde foram realizadas aplicações de fósforo e calcário. Os resultados evidenciam a importância da correção química do solo. “Onde não há calagem, as plantas emergem, mas não se desenvolvem e acabam morrendo pela falta de nutrientes e pelo excesso de alumínio tóxico”, explica o coordenador da Fazenda Experimental Coamo, João Carlos Bonani.

Mesmo em áreas onde a correção foi realizada décadas atrás, os efeitos ainda podem ser observados no desenvolvimento das plantas, ainda que com baixa produtividade. Nessas áreas, a matéria orgânica é mantida no solo por meio do não recolhimento da produção, contribuindo para a ciclagem de nutrientes.

O trabalho desenvolvido no Museu do Solo também tem caráter educativo. A área recebe visitas de estudantes, técnicos e produtores, com o objetivo de demonstrar a evolução da agricultura na região e a importância das práticas de manejo adotadas ao longo do tempo. “A gente mostra que o cenário atual é resultado de um trabalho construído desde o início da ocupação agrícola, com participação dos produtores e da assistência técnica”, afirma Bonani.

O coordenador ressalta que ao longo das décadas, a combinação entre pesquisa, assistência técnica e adoção de tecnologias pelos cooperados consolidou práticas que hoje fazem parte da rotina no campo. “A conservação do solo está diretamente ligada à continuidade da produção e à sustentabilidade da atividade agrícola.”



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Tecnologias para conservar o solo

A trajetória da Coamo se confunde com a própria evolução da agricultura no Paraná. No início, os solos da região eram considerados fracos e ácidos. A área ficou conhecida como a “terra dos três S”: saúva, sapé e samambaia. Produzir, naquele contexto, exigia mais do que esforço. Exigia ciência. A partir da organização dos produtores, a cooperativa iniciou um trabalho sistemático de correção de solo e incorporou novas tecnologias ao sistema produtivo. Ao longo das décadas, os produtores transformaram a paisagem e ampliaram significativamente os índices de produtividade.

“Saímos das produtividades de 70 sacas de soja por alqueire e hoje comemoramos muitos agricultores colhendo acima de 200 sacas. E o plantio direto colaborou muito junto com outras técnicas para que isso se tornasse realidade”, explica o engenheiro agrônomo, Aquiles de Oliveira Dias, diretor de Suprimentos e Assistência Técnica da Coamo.

Segundo Dias, o plantio direto é uma revolução para a agricultura e os produtores aprenderam, ao longo dos anos, com os ensinamentos dos técnicos e pesquisadores, que a continuidade e o sucesso da tecnologia dependem de não mexer no solo. Assim, com a evolução, os produtores passaram a vivenciar um novo cenário agrícola com agilidade e segurança nas etapas do plantio, reserva de umidade no solo, menor custo de produção, germinação uniforme e desenvolvimento das plantas em um mesmo padrão, com a prática da conservação dos solos.

Cartaz do livro 50 anos do lançamento do Plano Nacional de Conservação de Solos, com o monumento ao fundo
QR Code para acessar o livro

Para conhecer a história dos 50 Anos do Plano Nacional de Conservação dos Solos, acesse o livro de autoria de Ilivaldo Duarte, Jair Elias e José Petruise. Aponte o celular para o QR Code ao lado.

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