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Ao longo das últimas cinco décadas, a agricultura passou por uma profunda transformação. A adoção de práticas de conservação do solo, correção, adubação e, principalmente, a implantação do plantio direto mudaram a forma de produzir e contribuíram para elevar os níveis de produtividade. Essa trajetória foi construída com a participação dos produtores, pesquisa e assistência técnica, acompanhando a evolução das tecnologias. O presidente do Conselho de Administração da Coamo, José Aroldo Gallassini, acompanhou parte dessa história e revisita os principais momentos dessa transformação. Ele também aborda sobre os desafios das próximas décadas e reforça que preservar e melhorar o solo é essencial para produzir com eficiência e sustentabilidade.
Revista Coamo: O senhor acompanhou toda essa história desde o início. Como avalia a trajetória após cinco décadas?
José Aroldo Gallassini: Posso falar literalmente de cadeira, porque eu estava lá há 50 anos. Parece que foi ontem. O tempo passa rápido, mas foi realmente muito trabalho e um desenvolvimento extraordinário de uma grande região, que tinha terras ácidas e fracas. Esse trabalho foi feito com a ajuda de todos. Ninguém faz nada sozinho. Foi uma evolução que hoje nos permite comemorar os avanços tecnológicos, o aumento da produtividade e a transformação da agricultura regional.
RC: A década de 1970 foi um dos períodos mais transformadores da agricultura brasileira?
Gallassini: Sem dúvida. De profundas mudanças. A agricultura brasileira estava se modernizando rapidamente, com a chegada das máquinas, crédito rural, fertilizantes e de novas tecnologias. Mas, ao mesmo tempo, enfrentávamos problemas muito sérios. Na nossa região, o principal deles era a erosão. As chuvas levavam embora o solo fértil e comprometiam a produção. Produzir mais era importante, mas ficou evidente que precisávamos conservar os recursos naturais.
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RC: Como era a agricultura na região de Campo Mourão naquela época?
Gallassini: Era uma realidade completamente diferente da atual. Tudo era feito praticamente de forma manual. O plantio era realizado com pequenas máquinas, não havia adubação adequada, não existia correção do solo com calcário e a produtividade era muito baixa. A região era conhecida como a terra dos “três S”: sapé, samambaia e saúva. Isso representava as enormes dificuldades enfrentadas pelos agricultores. Eram terras ácidas, pobres e pouco valorizadas. Havia muito trabalho a ser feito. Produzir exigia coragem, conhecimento técnico e persistência. Mas, acreditávamos no potencial da região. Com assistência técnica, correção do solo, pesquisa e trabalho dos produtores, conseguimos transformar completamente essa realidade.
RC: A erosão era uma grande ameaça?
Gallassini: Sem dúvida. O preparo convencional do solo, com arados e grades, deixava a terra exposta. Bastava uma chuva mais intensa para surgirem sulcos, ravinas e grandes processos erosivos. Perdíamos justamente a camada mais rica em matéria orgânica e nutrientes. Vivemos um dos maiores desafios da história agrícola da região. Naquele momento começamos a implantar diferentes sistemas de conservação. Primeiro vieram as curvas de nível. Depois essas estruturas foram sendo reforçadas até chegarmos aos famosos murunduns, que em alguns locais ultrapassavam um metro de altura. O problema era que, quando chovia demais e essas estruturas se rompiam, o prejuízo era ainda maior.
RC: Em 04 de setembro de 1976, Campo Mourão tornou-se palco de um acontecimento histórico com o lançamento do Programa Nacional de Conservação dos Solos. Como foi esse momento?
Gallassini: Foi um marco para a região e para a agricultura brasileira. Campo Mourão vivia intensamente os problemas causados pela erosão e se transformou em símbolo da busca por soluções. Houve uma grande mobilização de lideranças, cooperativas, entidades e produtores rurais. Foi um dia histórico. Toda a população estava reunida na Praça do Fórum quando começou uma chuva muito forte. Tivemos de correr e improvisar. Os discursos acabaram sendo realizados sobre sacarias de sementes e o encerramento do evento foi transferido para os armazéns da Coamo. Mas, o mais importante foi o significado daquele momento. Campo Mourão foi escolhida para sediar o lançamento do programa nacional graças ao trabalho que vinha sendo desenvolvido na região. Isso faz parte da história da cidade e da conservação do solo no Brasil.
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