Coamo Agroindustrial Cooperativa | Edição 572 | Setembro de 2026 | Campo Mourão - Paraná

ENTREVISTA

entrevista


José Aroldo Gallassini

Presidente dos Conselhos de Administração da Coamo e Credicoamo

“O futuro do cooperativismo depende da nossa capacidade de cultivar, todos os dias, a cultura, os valores e a sua essência”

José Aroldo Gallassini, de camisa azul e braços cruzados

José Aroldo Gallassini, engenheiro agrônomo formado pela UFPR, chegou a Campo Mourão em 1968 como extensionista rural da Acarpa. Participou da organização dos produtores e da fundação da Coamo, em 1970. Na década de 1970, acompanhou os trabalhos de conservação dos solos na região, com a adoção de práticas como curvas de nível, terraços e, posteriormente, o plantio direto. Em 1976, participou do lançamento do Programa Nacional de Conservação dos Solos, realizado em Campo Mourão.

Ao longo das últimas cinco décadas, a agricultura passou por uma profunda transformação. A adoção de práticas de conservação do solo, correção, adubação e, principalmente, a implantação do plantio direto mudaram a forma de produzir e contribuíram para elevar os níveis de produtividade. Essa trajetória foi construída com a participação dos produtores, pesquisa e assistência técnica, acompanhando a evolução das tecnologias. O presidente do Conselho de Administração da Coamo, José Aroldo Gallassini, acompanhou parte dessa história e revisita os principais momentos dessa transformação. Ele também aborda sobre os desafios das próximas décadas e reforça que preservar e melhorar o solo é essencial para produzir com eficiência e sustentabilidade.

Revista Coamo: O senhor acompanhou toda essa história desde o início. Como avalia a trajetória após cinco décadas?

José Aroldo Gallassini: Posso falar literalmente de cadeira, porque eu estava lá há 50 anos. Parece que foi ontem. O tempo passa rápido, mas foi realmente muito trabalho e um desenvolvimento extraordinário de uma grande região, que tinha terras ácidas e fracas. Esse trabalho foi feito com a ajuda de todos. Ninguém faz nada sozinho. Foi uma evolução que hoje nos permite comemorar os avanços tecnológicos, o aumento da produtividade e a transformação da agricultura regional.

RC: A década de 1970 foi um dos períodos mais transformadores da agricultura brasileira?

Gallassini: Sem dúvida. De profundas mudanças. A agricultura brasileira estava se modernizando rapidamente, com a chegada das máquinas, crédito rural, fertilizantes e de novas tecnologias. Mas, ao mesmo tempo, enfrentávamos problemas muito sérios. Na nossa região, o principal deles era a erosão. As chuvas levavam embora o solo fértil e comprometiam a produção. Produzir mais era importante, mas ficou evidente que precisávamos conservar os recursos naturais.

RC: Como era a agricultura na região de Campo Mourão naquela época?

Gallassini: Era uma realidade completamente diferente da atual. Tudo era feito praticamente de forma manual. O plantio era realizado com pequenas máquinas, não havia adubação adequada, não existia correção do solo com calcário e a produtividade era muito baixa. A região era conhecida como a terra dos “três S”: sapé, samambaia e saúva. Isso representava as enormes dificuldades enfrentadas pelos agricultores. Eram terras ácidas, pobres e pouco valorizadas. Havia muito trabalho a ser feito. Produzir exigia coragem, conhecimento técnico e persistência. Mas, acreditávamos no potencial da região. Com assistência técnica, correção do solo, pesquisa e trabalho dos produtores, conseguimos transformar completamente essa realidade.

RC: A erosão era uma grande ameaça?

Gallassini: Sem dúvida. O preparo convencional do solo, com arados e grades, deixava a terra exposta. Bastava uma chuva mais intensa para surgirem sulcos, ravinas e grandes processos erosivos. Perdíamos justamente a camada mais rica em matéria orgânica e nutrientes. Vivemos um dos maiores desafios da história agrícola da região. Naquele momento começamos a implantar diferentes sistemas de conservação. Primeiro vieram as curvas de nível. Depois essas estruturas foram sendo reforçadas até chegarmos aos famosos murunduns, que em alguns locais ultrapassavam um metro de altura. O problema era que, quando chovia demais e essas estruturas se rompiam, o prejuízo era ainda maior.

RC: Em 04 de setembro de 1976, Campo Mourão tornou-se palco de um acontecimento histórico com o lançamento do Programa Nacional de Conservação dos Solos. Como foi esse momento?

Gallassini: Foi um marco para a região e para a agricultura brasileira. Campo Mourão vivia intensamente os problemas causados pela erosão e se transformou em símbolo da busca por soluções. Houve uma grande mobilização de lideranças, cooperativas, entidades e produtores rurais. Foi um dia histórico. Toda a população estava reunida na Praça do Fórum quando começou uma chuva muito forte. Tivemos de correr e improvisar. Os discursos acabaram sendo realizados sobre sacarias de sementes e o encerramento do evento foi transferido para os armazéns da Coamo. Mas, o mais importante foi o significado daquele momento. Campo Mourão foi escolhida para sediar o lançamento do programa nacional graças ao trabalho que vinha sendo desenvolvido na região. Isso faz parte da história da cidade e da conservação do solo no Brasil.

Dois homens ao lado do Monumento de Conservação do Solo, em Campo Mourão

Alysson Paolinelli durante visita ao Monumento de Conservação do Solo, em 2016. Obra está em Campo Mourão e foi inaugurada em 1976, quando Paolinelli era ministro da Agricultura

RC: Qual foi o significado da presença do ministro Alysson Paolinelli naquele momento?

Gallassini: Foi um reconhecimento nacional. Recebemos o ministro Alysson Paolinelli, o governador Jaime Canet Júnior, o secretário da Agricultura Paulo Carneiro e diversas lideranças. Ficou claro que conservar o solo significava preservar o futuro da agricultura. Um dos momentos mais marcantes foi quando o ministro realizou o primeiro risco de uma curva de nível na Fazenda Experimental da Coamo, simbolizando o compromisso com a conservação dos solos.

RC: Como a Coamo participou desse movimento de conservação dos solos?

Gallassini: A Coamo sempre teve uma atuação muito próxima dos produtores. Desde o início entendemos que a conservação do solo precisava ser uma prioridade. O produtor rural tinha consciência do problema e sabia que, sem ações concretas, poderia perder seu patrimônio produtivo. A assistência técnica trabalhou intensamente na orientação dos cooperados e na difusão das práticas conservacionistas.

RC: Como foi a evolução das técnicas de conservação do solo?

Gallassini: O sistema de conservação chamado Base Larga representou um grande avanço. Mas, o que realmente resolveu o problema, como nenhum outro sistema conseguiu fazer, foi o plantio direto. Era algo que ninguém imaginava: colher uma lavoura e plantar outra por cima, sem mexer na terra. Essa foi uma das maiores revoluções da agricultura brasileira.

RC: Então, o plantio direto pode ser considerado uma grande revolução?

Gallassini: Sem dúvida. O plantio direto permitiu conciliar produtividade e conservação. Passamos a manter o solo coberto, reduzimos drasticamente a erosão, melhoramos a retenção de umidade e aumentamos a eficiência produtiva. Foi um passo fundamental para a agricultura moderna que temos hoje. Também vieram práticas para correção do solo. Corrigimos a acidez, investimos em calcário, adubação adequada e no manejo correto. Com isso, terras que eram consideradas fracas e improdutivas passaram a ter alto potencial agrícola. Essa transformação só foi possível graças à confiança dos produtores nas orientações técnicas e à aplicação das novas tecnologias.

RC: E a atuação do produtor rural?

Gallassini: Eu sempre digo que o agricultor é muito inteligente. Quando uma tecnologia realmente funciona, ela é rapidamente adotada. Foi assim com o plantio direto, com a correção da acidez do solo, com as curvas de nível e com a adubação adequada. Os produtores perceberam os resultados e passaram a utilizar essas práticas de forma natural.

RC: O que mudou em termos de produtividade ao longo dessas décadas?

Gallassini: A mudança foi extraordinária. A rápida adoção das novas tecnologias fez toda a diferença. Passamos de uma agricultura com limitações enormes para uma das regiões mais produtivas do Brasil. Isso só foi possível graças à tecnologia, pesquisa, assistência técnica e ao manejo adequado do solo. O que vemos hoje é resultado de décadas de trabalho bem-feito. Sair de patamares de 70 sacas de soja por alqueire para mais de 200 sacas foi algo nunca imaginado. Estamos conquistando colheitas de grandes produtividades.

Fotografia em preto e branco de Gallassini com o ministro da Agricultura, o governador do Paraná e o prefeito de Campo Mourão, em 1976
Página do Jornal da Coamo de setembro de 1976 com a manchete Gallassini ressalta a ação do Governo e mostra a Coamo

Encontro de Gallassini com ministro da Agricultura, governador do Paraná e prefeito de Campo Mourão; e página do Jornal da Coamo em setembro de 1976

RC: Mas, é necessário continuar evoluindo?

Gallassini: Sim, com certeza, não podemos parar. Temos ferramentas que eram inimagináveis há 50 anos. Agricultura de precisão, conectividade no campo, monitoramento por satélite, mapeamento da fertilidade dos solos e inúmeras outras tecnologias. Além disso, a Coamo conta com uma estrutura técnica muito forte, com mais de 400 profissionais entre agrônomos e veterinários, apoiados por pesquisas conduzidas em nossas Fazendas Experimentais. Precisamos continuar evoluindo. Ainda temos desafios relacionados à conservação do solo, ao controle de plantas daninhas resistentes e à necessidade de aumentar a eficiência produtiva. Por isso, a pesquisa e a inovação continuam sendo fundamentais para garantir mais produtividade e renda aos cooperados.

RC: Que lição a história da conservação do solo deixa para as novas gerações?

Gallassini: A principal lição é que o solo deve ser visto como o maior patrimônio do produtor rural. A conservação não pode ser uma preocupação passageira. Precisa fazer parte da cultura agrícola. O produtor não deve apenas conservar o solo, mas também melhorá-lo continuamente. Foi essa visão que permitiu transformar uma região marcada pela erosão em uma das mais produtivas do Brasil.

RC: Passados 50 anos, qual deve ser o trabalho do produtor pensando no futuro?

Gallassini: O produtor precisa reconhecer que hoje tem uma estrutura extraordinária à sua disposição. Temos pesquisa, assistência técnica, novas tecnologias e conhecimento. Mas é fundamental continuar cuidando do principal patrimônio da propriedade: o solo. É preciso fazer análises regularmente, corrigir a acidez, equilibrar macro e micronutrientes, praticar a rotação de culturas e manter a fertilidade do solo. Tudo isso é indispensável para alcançar altas produtividades de forma sustentável.

RC: Qual a sua mensagem aos produtores cooperados, experientes e das novas gerações?

Gallassini: Quando olho para trás e vejo que passamos de uma região que contava com apenas 13 agrônomos para uma estrutura com mais de 400 profissionais entre agrônomos e veterinários, percebo o quanto avançamos. Tenho convicção de que a história da nossa agricultura mostra a força do cooperativismo, da tecnologia e da perseverança dos produtores rurais. Construímos essa trajetória juntos. O desafio agora é continuar produzindo cada vez mais, com sustentabilidade, preservando o solo, a água e os recursos naturais para as próximas gerações.

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